Precisamos Falar Sobre o Kevin, de Lionel Shriver (#34)

  • quarta-feira, junho 28, 2017
  • By Aline Lanis
  • 14 Comments


Hoje eu tô aqui pra falar sobre o Kevin. E precisamos muito falar sobre o Kevin. Não apenas sobre o Kevin em si, mas em tudo em que "Kevin" engloba. Talvez falando sobre isso, nós podemos finalmente entender o que aconteceu. 

Já repararam que quando algo ruim acontece nós começamos a relembrar de tudo, na esperança de achar uma linha solta, algo que nos indique que foi ali, naquele momento em que tudo começou a ir ladeira abaixo? Não sei se isso acontece com todos, só sei que acontece comigo. E é exatamente isso que a nossa narradora faz.

Nossa narradora é Eva Khatchadourian, uma mulher bem sucedida que conseguiu ser independente através de um "trauma". Sua mãe não sai de casa de jeito algum, sente medo de tudo que há lá fora. Crescendo numa casa assim, Eva sente uma necessidade enorme de sair de sua zona de conforto e foi viajando que criou sua empresa "A Wing & a Prayer" um guia turístico. Por conta disso, Eva viaja muito a trabalho pois ela não confia essa verificação com mais ninguém a não ser ela mesma.

Ela é casada com Franklin, e querendo ou não ela é bem mais sucedida do que ele em questões de carreira e trabalho. O que o incomoda, ao menos foi o que eu mais percebi durante a minha leitura. O livro é composto completamente por cartas de Eva ao seu antigo marido. Logo descobrimos que eles não estão mais juntos e essas cartas são o modo que Eva achou de falar com alguém e ao mesmo tempo relembrar fatos de sua vida de casada, tendo a chance de lhe contar o seu lado da história.

O fato é que seu primogênito, Kevin, planejou e executou um massacre em sua escola numa quinta feira. Ela intercala os acontecimentos presentes como seu dia a dia, seu novo trabalho e as visitas a penitenciária em que Kevin vive, com os acontecimentos passados que vai desde todo o processo de decisão de ter um filho até a bendita quinta feira.

Franklin, que é doido para ter um filho, levanta o questionamento da maternidade o que vem como uma pressão muito forte em cima de Eva, que não tem desejo de ser mãe. Ela até se questiona se há algo errado com ela já que com seus 35 anos ela ainda não tinha entrado nesse "cio maternal". Mas ela acaba cedendo e isso vem em grande parte pela culpa que ela sente em negar a única coisa que o marido mais quer. 

Ela tenta constantemente criar desculpas de que sim, ela queria ter esse filho. Mas a verdade é que ela nunca quis. E após ficar grávida, as coisas só pioram. Franklin era possessivo com o futuro filho, como se nada mais importasse além do bebê, nem mesmo a mulher que o carregava. 

O livro tem uma narrativa lenta, o que pode não ser agradável para todo mundo. Eu mesma sofri bastante lendo, não conseguia ler uma carta atrás da outra de jeito nenhum pois eu me sentia mal com todos os acontecimentos. Em vários momentos eu passei raiva e quis jogar o livro na parede ou na rua já que li boa parte dele no ônibus. Eu sinceramente não sei como Eva aturou tudo aquilo sem gritar ou assassinar alguém, assim como Kevin.

O marido dela, como já disse antes, era possessivo demais com o filho e acredita com todas as fibras do seu ser que o que Eva relata são mentiras, como se ela quisesse culpar o filho pelas suas falhas. Sem contar toda a questão que ele claramente não sabe como funciona um casamento saudável. Ele toma decisões sem ao menos contar para a mulher. Decide sozinho que eles precisam mudar para um subúrbio, praticamente força Eva a desistir de seu trabalho para cuidar do filho 24h por dia e ainda cria o filho como bem entende sem antes consultar a mãe.

Tipo assim querido, você não fez o bebê sozinho e ele não é só seu. Ela tem todo o direito de participar na forma como ele tá sendo educado tá bom?
Sério gente, como ela consegue aturar isso? Deus me livre de um dia ficar na posição dela, porque eu com certeza surtaria facilmente.

Apesar de ter um tema perturbador no meio da história contada, o massacre escolar, a questão principal do livro é a maternidade e como isso pode ser negativo para uma mulher. O que é irônico pois as mulheres vivem em constante pressão para ser mães, mesmo que não queiram, e a maternidade é romantizada em tudo que nós vemos. O que esse livro faz é jogar toda essa romantização no lixo. A narração do trabalho de parto é torturante e foi a primeira vez que eu li essa dor real num livro. O mais próximo que eu cheguei da 'dor' antes foi em textos sobre o parto em que li para uma matéria da faculdade. Mas antes disso tudo que eu lia era como é algo lindo e prazeroso, não que não seja possível, mas acho que deu pra entender.


Me incomodou muito o fato de que quando Kevin mata seus colegas de escola, a culpa vai para cima de Eva e em nenhum momento é dito que a culpa foi também do pai (se é que existe culpa deles). É aquilo que vemos diariamente, a culpa é sempre da mãe. Não importa o que o pai tenha feito, a responsabilidade sempre cai em cima dos ombros da mãe. Eva se questiona muito se ela teve alguma culpa nisso tudo, ainda que ela acredite que Kevin nasceu mau.

É chocante todas as narrações da vida de Kevin com a mãe, desde o seu nascimento até a quinta feira. Desde o início, Kevin se mostra frio e não demostra nenhum interesse pela vida e nem afeto pelos pais. Isso fica bem claro para Eva, já que ele não tentava esconder isso dela. Já com o pai, ele fingia ter interesse pelo que lhe era apresentado. É ainda mais chocante, devido ao que nós somos levados a acreditar, quando descobrimos que Eva também não gosta do filho.

É um livro pesado, arrastado de uma forma boa e que eu acho que não agrada a todos que decidam ler. Mas se você resolver lê-lo, vá de mente aberta. Tente entender o lado dessa mãe que se sente tão culpada pelo comportamento do filho mesmo que no fim, a culpa não seja dela e de ninguém mais além de Kevin. E se preparem pro final, caso não tenham assistido ao filme.


Título Original: We Need to Talk About Kevin
Autora: Lionel Shriver
Editora: Intrínseca
Páginas: 464
Tradução: Beth Vieira e Vera Ribeiro
O que achei?
não me cativou | okay | legal | me cativou | amei demais | alma gêmea | ONDE ESSE LIVRO TAVA SE ESCONDENDO?

You Might Also Like

14 comentários

  1. Que texto bom de ler. Pulei algumas partes pra evitar qualquer spoiler, pq acho que tem alguns e quero muito ler o livro. Beijos

    http://textosquenaoseraolidos.blogspot.com.br/

    ResponderEliminar
  2. Oiii! Eu já tinha ouvido falar do livro, ainda mais pelo filme. Confesso que não criei coragem nem de ler, nem de assistir. E olha que eu gosto desse tipo de livro. To me preparando pra isso, até porque quero ler em um momento certo, onde não acabe desistindo do livro.
    Amei o texto, super claro e bem estruturado e as fotos. Mas posso dar um conselho? Eu tentei acessar o blog pelo celular e não dá. Claro que carrega e acessa, mas corta um pedaço da leitura. Eu te incentivaria a colocar modo celular também, porque outras pessoas podem ter tido essa dificuldade.
    Parabéns pelo blog! Beijos.

    https://almde50tons.wordpress.com/

    ResponderEliminar
  3. Oiii,Nunca vi o livro antes e é a primeira vez que vejo alguém falar sobre ele,não é meu gênero de livro preferido mas também não achei ruim eu gostei até do livro com certeza!!!

    ResponderEliminar
  4. Olá
    Ainda não tive a oportunidade de ler o livro, e eu quero muito ler. Assisti ao filme, que é muito bom, e ao final do filme meu marido e eu acabamos conversando sobre ele, e o quanto seus temas são importantes, e como o livro é sempre melhor, tenho que lê-lo

    ResponderEliminar
  5. Sou doida para ler o livro! O filme é um dos meus favoritos, imaginei mesmo que o livro fosse meio lento, já que o filme é bem silencioso. Gosto do fato que trazem a maternidade, tirando todo o romantismo em torno disso, como se instinto maternal existisse e que toda mulher sonhasse com isso, Eva nunca foi uma mãe ruim, e nem foi uma pessoa ruim por ter que aprender a gostar do filho, porque isso acontece com muitas mulheres em silêncio, o afeto pelo filho é uma questão de desenvolvimento com o tempo. E é assustador o quanto Kevin percebe os sentimentos do pai e da mãe e usa isso perfeitamente a favor dele. Eu realmente quero esse livro!

    ResponderEliminar
  6. Olá Aline, tudo bem?
    Já vi comentários bem positivos sobre esse livro, mas é a primeira vez que paro pra ler uma resenha. Não sabia do que se tratava, mas agora, fiquei curiosa. Sei que não deve ser uma leitura fácil, mas eu gostaria de conferir mesmo assim. Não sabia do filme, então obrigada pela dica!
    Beijos!

    ResponderEliminar
  7. Ola tudo bom? Bem eu ainda não tinha ouvido falar sobre o livro mas pela capa ele parece ser bem forte e a sua resenha só reforçou isso kkkk gostei.muito dele mas como aqui na minha cidade não tem livraria vou ver se encontro em PDF mesmo me interessei bastante por essa historia

    -Beijoss

    ResponderEliminar
  8. Nossa, gostei muito dessa resenha! Você esmiúça muito bem as questões que existem por trás da trama do livro, não só o contexto da história, mas o contexto social (maternidade compulsória, responsabilização pelos filhos praticamente inteira sobra as mães, relacionamento abusivo, etc.). E como eu não assisti ao filme, seu texto terminou me deixando com vontade de saber o que acontece no final... :)
    Bom, aproveito para dizer que dei uma olhada, por cima, nas resenhas do seu blog e me interessei muito, por várias delas. Assim, já estou te seguindo por aqui.

    https://teofilotostes.wordpress.com/

    ResponderEliminar
  9. Oi, Aline, que maravilha de resenha foi essa que você escreveu menina! Vai escrever tão bem assim lá no meu blog, haha!

    Vi o filme faz um tempo e quase tive uma paralisia cerebral com o final. Esse desgraçado desse garoto achou que era índio, haha. Mas a história é excepcional mesmo. Lionel Shriver mandou muito bem ao escrevê-la. Não li o livro e não sabia que a história foi escrita através de cartas; e isso só deve ter aumentado ainda mais a angústia da história.

    Show de bola tua resenha!

    ResponderEliminar
  10. Então.. confesso que tenho receio de ler esse livro, mas não sei porque...
    Sua resenha me deixou um pouco interessada, mas saber que a leitura se arrasta, não sei se leria ele agora.
    Mas parabéns pela sua resenha.

    Bjs
    Suka
    http://www.suka-p.blogspot.com.br

    ResponderEliminar
  11. Oi Aline, tudo bem?
    Gostei muito da sua resenha do livro. Eu não conhecia esse livro, ou melhor, já tinha visto a capa dele algumas vezes e o achado intrigante, mas não cheguei a procurar saber mais sobre a história. Pelo que você contou, até que parece ser um história interessante para se ler, contudo, não irei adicioná-la na minha lista de leitura pois estou procurando leituras mais leves ultimamente. De qualquer forma, parabéns pela resenha, ficou ótima.
    Beijos!!

    Abobrinha com Chocolate

    ResponderEliminar
  12. Heeey tudo bom? Eu já tinha visto esse livro em um video da Tatiana Feltrin e achei bem baccana, mas não sei se é um livro que faz o meu gosto. Pq não guarda a dica e da uma chance, não é mesmo.
    Abraços
    https://diarioleitorblog.blogspot.com/

    ResponderEliminar
  13. Ainda não li o livro, mas já assisti o filme e não consigo expressar o que sinto por ele. Eu amo qualquer coisa relacionada ao comportamento humano e esse filme/livro mostra muito isso. Pretendo ler o livro, pois amei demais o filme, então acho que irei gostar de ler. Algo que achei um pouco inusitado, digamos assim, quando li isso "Eu sinceramente não sei como Eva aturou tudo aquilo sem gritar ou assassinar alguém, assim como Kevin." Você disse que surtaria, caso acontecesse com você, então por base do que escreveu, só quero te deixar uma pergunta: Você mataria alguém? Tanto uma pessoa aleatória, como alguém que conheça, por conta dos problemas que você não consegue resolver?

    Prazer, Jéssica

    ResponderEliminar
  14. Nossa, que resenha incrível! eu nunca imaginei que esse livro envolvesse a questao da maternidade, aliás acho ótimo, já que ela não é só mil maravilhas e deve ser debatida! a romantização é um saco. A questão de o livro ser lento também me incomoda, maaas quando é um assunto bacana, vale a pena.Curti demais teu blog!

    ResponderEliminar