{CONTOS} Ônibus

by - segunda-feira, julho 10, 2017



São quase uma da manhã e embora haja muitas pessoas ao meu redor se aprontando a subir naquele ônibus eu não vejo nenhuma delas. Minha atenção está tomada pela pequena formiga que anda apressadamente pelo chão tentando não ser morta pelos gigantes que estão ali. Ela falha, logo um pé a esmaga sem nenhum esforço.
Sem aquela pequena distração, me obrigo a subir o olhar e observo por um breve momento o céu escuro e quase sem estrelas e um leve vento frio bate em meu rosto e balança meus cabelos. O tempo anda fechado esses dias. Finalmente olho para as pessoas que ali estão. Vejo que várias já entraram, faltando apenas mais um casal e eu. Entrego minha passagem para o motorista que aparenta ser um cara bem de mal com a vida. Penso no que ele sonhava em ser quando era mais jovem, se ele vive frustrado por dirigir ônibus de viagem ou se aceita sem nenhum problema seu trabalho. Talvez não seja um trabalho tão ruim assim.
Estou a caminho da capital, que daqui da minha cidade no interior, demora umas seis horas. Sim, é muito tempo. Avião seria bem mais rápido, mas, além do preço mais em conta, eu gosto muito da experiência de viajar de ônibus.
Só levo uma mochila comigo. De todas as coisas que compõe o meu ser, o que mais gosto, e a mais útil, é a habilidade de não precisar de muitas coisas. Subo os degraus e sento em minha poltrona reservada. A primeira do lado direito, no corredor. A poltrona ao lado está vazia, assim como quase todo o ônibus. Não deve ter mais de 15 pessoas aqui dentro.
Observo a porta se fechar e logo o ônibus parte. Coloco a mochila ao meu lado e abro para pegar o livro que estou lendo, um dos meus favoritos da vida. Leio o titulo “Frankenstein” no topo da capa e acho onde parei a leitura.
Sinto que fiquei horas com o olhar fixo nas páginas amarelas quando um barulho me tira a atenção, mas sei que é quase impossível que tenha passado mais de 5 minutos já que não li nem duas páginas direito. Procuro o causador do barulho e logo vejo que é alguém tentando abrir a porta do pequeno banheiro que fica bem em frente a minha poltrona. Esperei até que a pessoa conseguisse para voltar ao meu livro, porém mesmo já sem o barulho minha mente não conseguia focar nas palavras impressas.
Não desisti, continuei tentando ler e quando eu finalmente consegui voltar para dentro da história, a porta do banheiro foi aberta violentamente. Observei um rapaz com cabelos loiros e enrolados sair dali e o segui com os olhos por cima do livro que escondia quase toda minha face e, para minha surpresa, ele se sentou logo ao meu lado, do outro lado do corredor. Não lembro de tê-lo visto quando entrei no ônibus, o que nem era uma novidade já que eu nunca reparava muito bem as pessoas ao meu redor.
Continuei olhando para as páginas, mas sem ler seu conteúdo. De repente minha mente se esvaziou. Não pensava em nada, só olhava as páginas que nada me diziam. Só saí desse transe quando ouvi uma voz grave vindo do meu lado esquerdo.
– Oi? Tudo bem aí?
Virei a cabeça devagar, sem saber o que estava acontecendo. Olhei para os olhos azuis que me encaravam com curiosidade e uma certa preocupação.
– An? Que foi?
– Eu perguntei se você está bem. Você ficou um tempão encarando seu livro sem nem piscar e seus olhos não corriam pela página então percebi que você não estava lendo. Fiquei achando que você talvez estivesse tendo um ataque – ele sorri.
Não consigo não achar graça da minha própria situação. Então falo entre risadas:
– Desculpa. Sabe, na verdade isso acontece com frequência. As vezes eu estou fazendo algo e eu simplesmente entro num transe e encaro alguma coisa sem pensar em nada. Você tem que ver quando isso acontece e eu encaro uma pessoa desconhecida! É hilário, as pessoas até acham que eu talvez esteja possuída.
Ele então cai na gargalhada e logo se sente mal, como se a sua risada me deixasse desconfortável ou ofendida, e pede desculpas. Eu nem consigo respondê-lo já que eu estou rindo até mais do que ele. Até que finalmente me acalmo.
– Relaxa. Eu sei como isso deve parecer pra quem está observando.
– Bom, vou deixar você em paz.
Ele então vira a cabeça para a janela e olha a paisagem escura e eu finalmente consigo voltar a minha leitura. Mas não passa muito tempo e sou surpreendida pela voz daquele rapaz fazendo “psiu” para chamar a minha atenção. Olho devagar para o lado e ele sorri como se pedisse desculpas.
– Eu falei que te deixaria em paz mas eu preciso saber o que você está lendo.
Normalmente ninguém pergunta o que eu estou lendo. Não sei se é porque as pessoas que me veem não gostam de ler ou se elas tem vergonha, de qualquer forma eu fico surpresa com a pergunta e simplesmente mostro a capa do livro para ele que logo se anima quando nota qual livro estou lendo.
– Uau, sério? Eu amo esse livro, o que você tá achando dele?
– Na verdade eu estou relendo ele, é um dos meus livros favoritos! Essa deve ser a terceira ou quarta releitura. Lembro que da primeira vez que li, fiquei completamente fascinada pela escrita da Mary Shelley. Ela é magnífica, não?
– Com certeza, o modo como ela passa algumas mensagens como abandono é demais. O que me faz lembrar numa pergunta importante: o que você acha da Criatura?
– Vítima. Victor Frankenstein é simplesmente horroroso! Ele abandona a coitada da Criatura sem nem ao menos dizer um oi! Super falta de classe ao meu ver.
– SIM! Com toda certeza. Eu odeio quando me falam que a Criatura é horrível e me falam que Victor é uma vítima, se quer saber ele até mereceu tudo aquilo.
– Não sei bem, eu até entendo o lado da Criatura mas assassinato nunca é muito legal então eu também entendo o lado do Victor. Mas é tudo muito complicado, né? Ambos estão errados mas de formas diferentes… – ele me olha um pouco confuso – eu tô me contradizendo né?
– Sim. Mas tudo bem, eu entendo. Acho que os dois são vítimas, mas a Criatura é um pouco mais que o Victor.
– Acho que sim. Um pouco estranho, não é? Chamar a Criatura como feminino sendo ele um homem.
– Nunca pensei nisso.
– Não é muito relevante.
Ele me olha por um tempo sem dizer nada. Até que respira fundo e diz baixinho:
– Você é interessante.
E eu só consigo pensar em como eu quero dizer exatamente a mesma coisa.

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5 comentários

  1. Olá, gostei muito do conto, achei super fluído e envolvente, o comecinho foi até assustador no quanto a cena parece real na nossa cabeça, a cena da formiga!

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  2. Amei o conto!! Você escreve muito bem. Fiquei triste quando acabou, queria mais...

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  3. Olá, tudo bem?

    O seu conto foi muito bem escrito, e está na dose certa. Fiquei com vontade de ler mais e acho que leria por uma tarde inteira. Parabéns, você tem muito talento, espero que possa trazer mais coisas por aqui!

    Beijos!

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  4. Heeey! Menina o que é isso. Quero mais. Eu achei que ia ser algo mais. "De todas as coisas que compõe o meu ser, o que mais gosto, e a mais útil, é a habilidade de não precisar de muitas coisas." Me identifiquei kskskss Que você continue escrevendo, gostei bastante. Abraços.
    https://diarioleitorblog.blogspot.com/

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  5. Que conto incrível, parabéns!Você escreve muito bem, me prendeu do início ao fim e fiquei curiosa para saber o que acontece em seguida haha
    Beijos,
    http://www.nomundodaluablog.com/

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