O Conto da Aia, de Margaret Atwood (#42)

by - novembro 21, 2017


E eis que 2017 teve um burburinho bem marcante. Seu nome é The Handmaid's Tale. A grande nova série da Hulu, sistema de streaming igual Netflix que infelizmente não está disponível no Brasil, estava entre nós e de repente todos estavam comentando. Falando a verdade, eu não conheci a série por causa do borburinho em si, mas sim por grupos de Gilmore Girls que divulgavam a série pois a Alexis Bledel, que deu vida a nossa amada Rory Gilmore, participava da produção. Como uma boa fã, fiquei curiosa e pesquisei sobre mas acabei só vendo algumas fotos e segui a vida. Não conheci pelo burburinho de fato, mas foi ele que me instigou a ver a série.

Quando percebi, estava rodeada de artigos falando da importância da série e com postagens da Rocco que divulgava fortemente sua nova edição do livro "O Conto da Aia" que deu origem a adaptação. Saber que era baseado em um livro aumentou ainda mais a minha vontade de conhecer essa história e tive que me segurar muito para não devorar os 10 episódios antes de concluir minha leitura.

O livro foi publicado pela primeira vez em 1985 e voltou com tudo esse ano por conta da adaptação pela Hulu mas a história já teve duas outras adaptações em formato de filme e ópera. Narrado em primeira pessoa, o livro nos conta a história de Offred, uma aia que vive como uma prisioneira em sua nova casa. Ambientado em Gilead, que antes se localizava os Estados Unidos, essa sociedade agora segue uma teonomia cristã militar imposta por um golpe de um grupo denominados "Filhos de Jacó". Seguindo a "palavra divina", todas as mulheres perdem seus direitos e são divididas em categorias e possuem uma função específica. As aias são mulheres férteis que são obrigadas a viverem nas casas de homens da elite e serem estupradas até engravidar.


Isso porque devido a uma catástrofe nuclear, um grande números de pessoas se tornaram estéreis e a taxa de natalidade foii lá para baixo, o que preocupa toda a população. De qualquer forma, nessa sociedade as mulheres não são vistas como indivíduos mas sim como suas funções. E é absolutamente assustador quando você pensa nessa sociedade. Com tudo que anda acontecendo atualmente, o que não devia passar de ficção fica cada vez mais próximo da nossa realidade. Não estou dizendo que tudo o que tem nesse livro poderia acontecer exatamente da mesma forma, mas não é segredo para ninguém que desde dos tempos mais antigos as mulheres são vistas de forma inferior e como "donas" de certas funções como se fosse determinado pelo nosso sexo.

Há inclusive uma cena em que o comandante dizr numa conversa com a Offred dizendo que deram mais do que tiraram e os argumentos são simplesmente fantásticos:

Não se lembra do terrível abismo entre as que podiam conseguir um homem com facilidade e as que não podiam? Algumas delas ficavam desesperadas, passavam fome para ficarem magras, enchiam os seios de silicone mandavam cortar pedaços do nariz. Pense na infelicidade humana. [...] Da maneira como fazemos, elas conseguem um homem, ninguém é excluído. E depois, então, se de fato se casassem, podiam ser abandonadas com uma criança, duas crianças, o marido podia simplesmente achar que estava farto e largá-las, desaparecer, elas tinham que ficar às custas dos serviços sociais do governo. Ou então o marido ficava por lá e batia nelas. [...] não recebiam nenhum respeito pelo fato de serem mães. Não é de se espantar que estivessem desistindo da coisa inteira. Da maneira como fazemos estão protegidas, podem realizar seus destinos biológicos em paz.[...]

Conseguem notar que todo seu argumento vai pro lixo quando você pensa um pouco mais profundamente sobre como uma situação chega nesse estado? As mulheres não ficariam "desesperadas" e mudariam seus corpos se não houvessem um padrão de beleza que é praticamente impossível de ser alcançado. E o fato de serem abandonadas com filhos não é de forma alguma culpa da mulher e sim da pessoa que a abandona, o mesmo pra a agressão. O livro também traz um julgamento terrível se a mulher fizesse algo contra a vida. Em uma das lembranças de Offred de quando ela estava "em preparação" para ser mandada para um comandante junto com outras mulheres, há o relato de Janine em que ela conta do estupro coletivo que acabou numa gravidez que ela interrompeu. E o modo como as Tias do lugar obrigam todas a fazer Janine acreditar que o que lhe aconteceu era culpa dela e que Deus permitiu que isso acontecesse para lhe ensinar uma lição é simplesmente aterrorizante.

Eu não conhecia Margaret Atwood antes de todo o burburinho, mas sinto que a conheci num momento apropriado para minha idade e toda a situação atual. O livro dela me faz querer lutar cada vez mais para que nós não tenhamos que enfrentar na pele situações como a de seu universo, e na minha opinião é um livro que todos devem ler durante a vida.

🌵🌵🌵


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2 comentários

  1. Já quero <33
    Parabéns pelo blog, já estou seguindo para poder acompanhar as novidades

    www.papomoleca.com.br

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