A Febre, de Megan Abbott (#49)

by - maio 07, 2018


Seguindo as palavras de Gillian Flynn, é um romance "sombrio, perturbador e estranhamente fascinante." Foi por causa dessas palavras que eu resolvi comprar meu exemplar, isso sem nem ao menos ter lido Gillian Flynn. Confiei cegamente, levando em consideração a palavra de uma escritora que eu não conhecia de fato e só conhecia sua fama...não me arrependi.

O livro conta a história de uma pequena cidade chamada Dryden, onde em uma manhã comum Lise de repente cai no chão da sua classe de aula e tem convulsões sem motivo aparente. Sua amiga Deenie que estava próxima a ela, junto com seu colegas, ficam em desespero sem saber como lidar com aquilo. Logo no dia seguinte outra amiga de Deenie, Gabby, tem um ataque misterioso em uma apresentação na escola. Esses eventos traumáticos e sem explicação afeta toda a cidade depois que várias outras garotas começam a ter diversos sintomas sem motivo orgânico. Juntando o fato de não saberem a origem disso e o desespero que se arrasta por toda a cidade, as suspeitas se dividem entre um possível vírus, a vacina de HPV que as meninas tomaram recentemente e o misterioso lago da cidade que carrega uma história sombria. 

O livro de Megan Abbott é um exemplo muito bem construído de histeria coletiva, foi baseado num evento real que aconteceu em Nova York em 2012 e tem uma atmosfera quase fantasmagórica. Apesar de ter sim uma suspeita mais sobrenatural a narrativa é real em todas as páginas. Não é uma ficção fantasiosa, é a vida real acontecendo e sendo assustadora sem precisar de seres do além que nós não conseguimos entender. Na verdade, me arrisco a dizer que o fato de nós eventualmente nos deixarmos levar a uma explicação sobrenatural quando não temos respostas concretas sobre os mistérios da vida, me faz pensar o quanto nós não sabemos lidar com a realidade ao nosso redor.


A narrativa em 3ª pessoa separada em três diferentes pontos de vista é o ponto principal para que nós leitores fiquemos instigados a saber cada vez mais sobre o que está acontecendo. O narrador não se prolonga em cada visão, cortando justamente nos momentos em que uma informação importante está prestes a ser revelada e retornando naquele acontecimento páginas depois. Isso prende o leitor que fica a mercê de poucas informações. É como se o narrador falasse "calma, pequeno gafanhoto" constantemente para você. E para mim, isso foi excelente.

Apesar de ter um ritmo bem mais lento por isso, essa forma de narrar nos obriga a pensar em cada detalhe e não simplesmente "engolir" informações sem nem ao menos fazer pequenas ligações no que tá acontecendo. É fascinante a construção de cada pessoa que aparece, como vamos descobrindo um pouco mais de quem ela sem nenhuma pressa, o que ajuda a acalmar o sentimento de desespero que a gente acaba sentindo junto dos moradores daquela cidade. Talvez não agrade a todos, mas com certeza é uma forma inteligente de ganhar o leitor.

"A Febre" é muito mais do que um livro adolescente. É um suspense de qualidade que me deixou surpresa a cada novo capítulo, coisa que eu não achei que aconteceria pois comecei a leitura com um pouco de preconceito. Como é bom descobrir que você estava errada e achar mais uma autora para admirar. E se Gillian Flynn for tão boa quanto Megan Abbott consegue ser em sua narrativa, eu vou ficar extremamente feliz!

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